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8–10 anos

Conflitos com pares dos 8 aos 10 anos: grupinhos, exclusão, grupos de mensagens e como orientar em vez de arbitrar

Entre os oito e os dez anos, os problemas que o seu filho traz para casa mudam de forma. Já não é tanto "ele tirou-me a bola", mas mais "fizeram um clube e eu não estou nele", ou um grupo de mensagens que ficou calado no momento em que o seu filho entrou. É uma fase normal e importante de aprendizagem social, e dói ver. O objetivo agora não é manter os conflitos longe do seu filho, mas ajudá-lo a lidar melhor com eles.

Porque é que isto acontece nesta idade

Por volta dos oito anos, a amizade deixa de ser sobretudo sobre quem está por perto e passa a ser sobre a quem se pertence. As crianças organizam-se em grupos, e esses grupos criam uma hierarquia. Quem está dentro, quem decide e quem se senta onde contam imenso, porque pertencer passa a parecer parte de quem o seu filho é.

É também por isso que muda a forma como as crianças se magoam umas às outras. As mais novas empurram e tiram coisas; as de oito a dez anos, sobretudo perto dos nove e dez, recorrem mais ao que os investigadores chamam agressão relacional: deixar alguém de fora, espalhar um boato, o comentário sussurrado calculado para que o alvo veja. É mais difícil de detetar pelos adultos e igualmente doloroso.

A capacidade do seu filho de ver o ponto de vista do outro está a crescer depressa, mas ainda é irregular. A lealdade e a justiça são os grandes temas morais desta idade, por isso ser traído ("era minha amiga e escolheu-as a elas") ou tratado injustamente dói mais do que o episódio em si deixaria adivinhar. E os sentimentos são intensos mas cada vez mais privados: uma criança que antes lhe contava tudo pode agora dizer "tudo bem" e ir para o quarto.

Muitas famílias veem também, pela primeira vez, o conflito passar para os ecrãs: um grupo de mensagens da turma, um jogo partilhado, uma aplicação de mensagens num tablet. Ali repetem-se as mesmas dinâmicas, mas mais depressa, por escrito, à frente de mais gente e muitas vezes à noite.

Há uma distinção que importa. O conflito comum é mútuo, ocasional e algo de que as duas crianças se conseguem afastar; é assim que aprendem. O bullying é diferente: é repetido, tem a intenção de magoar e há um desequilíbrio de poder, seja no tamanho, na popularidade, no número ou em ter algo embaraçoso para usar contra alguém. A maior parte do que o seu filho vai enfrentar será do primeiro tipo. O segundo precisa de adultos envolvidos.

O que ajuda

Ouça e devolva o que ouviu antes de aconselhar, e depois pergunte o que ele quer. Quando a história sair, resista à vontade de resolver. Repita o que ouviu: "Então a Beatriz fez um grupo e disse que tu não podias entrar, e a Leonor foi atrás dela. Isso deve ter doído mesmo." Depois pergunte: "O que gostavas que acontecesse amanhã?" Uma criança quer que a exclusão pare; outra só quer alguém com quem ir para a sala. A resposta diz-lhe que competência treinar.

Ofereça duas ou três opções concretas e ensaiem uma. As crianças desta idade conseguem mais do que "diz à professora", mas precisam de palavras concretas. Palavras calmas e firmes: "Para de dizer isso às pessoas. Não é verdade e não gosto." Afastar-se para outra atividade em vez de ficar ali a aguentar. Procurar um adulto quando continua a acontecer ou quando alguém se pode magoar. E reparar, quando o seu filho fez parte do problema: "Não me devia ter rido do teu desenho. Desculpa." Depois ensaiem uma ou duas vezes, com você no papel da outra criança. O objetivo são palavras que saiam quando a cabeça dele ficar em branco.

Mantenha o círculo largo. Nesta idade, uma única grande amizade pode parecer o mundo inteiro, o que significa que uma zanga o esvazia. Repare noutros nomes que o seu filho menciona ("Tu e o Duarte acabam sempre a rir na natação") e arranje tempo para uma atividade, um primo ou um amigo de outra turma. Uma criança com três sítios a que pertence recupera muito mais depressa de problemas num deles.

Combinem regras simples para os grupos de mensagens e acompanhe sem espiar. Se o seu filho estiver em algum grupo ou jogo online, definam juntos o básico antes de alguma coisa correr mal: aparelhos nas divisões comuns e fora do quarto à noite, nada escrito que não diria à pessoa cara a cara, sair de um grupo que fica desagradável, e nunca partilhar a fotografia ou o segredo de outra pessoa. Junte uma promessa: pode mostrar-lhe qualquer coisa que o perturbe sem perder automaticamente o telemóvel. Depois pergunte por isso como pergunta pelo recreio, com curiosidade e não com vigilância: "Alguma coisa engraçada no grupo da turma esta semana? Alguma coisa que te tenha parecido estranha?"

Trabalhe com a escola quando surgir um padrão. Um único dia mau raramente precisa da intervenção de um professor. A mesma criança ou grupo a visar o seu filho durante semanas precisa. Vá tomando nota das datas e do que aconteceu, peça uma reunião com o professor titular e descreva o padrão em vez de exigir castigos: "É a quarta semana. Quero perceber consigo como fazer isto parar." Os professores veem o recreio e podem mudar lugares, vigilância e grupos de formas que você não pode.

Se for o seu filho a magoar os outros, diga-o com clareza e ajude-o a reparar. É um choque saber que o seu filho excluiu alguém ou liderou um boato, e isso não faz dele uma má criança; nesta idade, as crianças muitas vezes vão atrás do grupo e avaliam mal o quanto algo magoou. Diga-o sem humilhar: "Isso foi maldoso, e sei que consegues fazer melhor." Ajude-o a ver o impacto ("Como achas que o Gonçalo se sentiu quando o grupo todo deixou de lhe responder?") e depois a emendar, com um pedido de desculpa a sério e uma mudança no que faz a seguir. Elogie a reparação quando acontecer.

O que evitar

Intervir para resolver, ou confrontar a outra criança ou os pais dela. Tira o problema das mãos do seu filho, muitas vezes piora as coisas na escola e ensina-lhe que não é capaz. Para tudo o que precise de um adulto, passe pela escola.

"Ignora" como único conselho. Ignorar provocações ocasionais é uma opção razoável; ignorar exclusão repetida ou boatos não os faz parar, e as crianças ouvem o conselho como "o teu problema não é importante".

Rotular as outras crianças como más. "Aquela miúda não presta" parece lealdade, mas na semana seguinte podem voltar a ser amigas, e o seu filho vai deixar de lhe contar coisas para evitar a sua reação. Descreva o comportamento, não a criança.

Desvalorizar a exclusão porque ninguém bateu em ninguém. Ser posto de parte e ser alvo de conversas magoa tanto como ser empurrado, e com o tempo faz estragos reais.

Fazer interrogatórios, ou proibir os aparelhos como primeira medida. Uma sequência de perguntas faz a criança calar-se; uma pergunta aberta e um silêncio de quem ouve costumam trazer mais. E uma criança que perde o telemóvel no momento em que fala de um problema vai deixar de falar dos problemas.

Quando procurar ajuda

Envolva a escola rapidamente se vir sinais de que isto se tornou bullying: o seu filho tem medo de ir à escola, tem nódoas negras ou ferimentos sem explicação, chega a casa com objetos perdidos ou estragados, afasta-se dos amigos ou da família, ou começa a ter dificuldades em dormir.

Fale com o médico de família, o pediatra ou um psicólogo infantil se:

Qualquer contacto online de um adulto que o seu filho não conhece, e qualquer ameaça, presencial ou online, deve ser levado de imediato à escola e, quando se justifique, à polícia.

Se o seu filho alguma vez falar em magoar-se, disser que preferia não estar cá ou parecer sem esperança, procure de imediato ajuda profissional através do médico, de uma linha de apoio como o SNS 24 (808 24 24 24) ou do 112.

Fontes

Este guia é informação geral e não substitui aconselhamento médico ou psicológico. Se estiver preocupado com o seu filho, fale com o médico ou com outro profissional.